A beira

Lívia Alen

A beira tem muita beleza. Da beira-rio, ou da beira-mar, é possível ver longe a paisagem. O sujeito senta ali e olha. Só olha. O outro passa apressado. O bom da beira é justo isso, não é preciso ter tempo. Da beira, mesmo poucos minutos são suficientes para se admirar. É bonito ver o pôr-do-sol assim em alguma beirada. Talvez seja porque as beiras têm muito de fim, por sua falta de inteireza. Afinal, a beira é só isso, só beira.

Apesar de bonito, é muito pouco. Para ir além, é necessário se despir; entrar no rio ou no mar. Ali, além da beleza, há profundidade. Mas é preciso tempo. É preciso mais. Não é qualquer um que está disposto a se meter em profundezas. É mais fácil só sentar e olhar. Ou passar apressado. É que é difícil demais ser inteiro, mais fácil ser só beira, só isso.

Sair da beirada exige coragem. A água é fria. Podem haver perigos. Só entra em rios quem está disposto aos riscos. Depois de deixar para trás as roupas ou seja lá o que for, já não há mais controle, já não se sabe. Então, mergulha-se. Demora-se tempo para se acostumar. A beira já está longe. Agora é só azul. Então, já se é inteiro, se é muito mais que beira.

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9 comentários sobre “A beira

  1. Lívia querida, parabéns pelo poético texto! Estar à beira é sempre estar buscando por algo que completa essa incompletude de que somos feitos! Por exemplo, buscar seus textos, quando o concreto quer se fazer muro.

    Curtido por 1 pessoa

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