Quanto vale ganhar a copa?

Lívia Alen

No clima da copa do mundo, quando Uruguai e Brasil ainda estavam na disputa, me contaram a história de uma menina uruguaia que não queria que seu país saísse vencedor. Apesar da torcida do pai e do irmão, a criança fora categórica, não gostaria que a seleção conhecida como Celeste levasse a taça. Pois bem, seu sentimento e torcida quase contrária nada tinham a ver com antipatia ao futebol ou coisa parecida. Ela tomou sua decisão após ver um documentário que contava sobre uma onda de suicídios na época do Maracanazo, em 1950.

Explico do que se trata para os leitores cujos conhecimentos de futebol são tão poucos quanto os meus. Em 1950, o Uruguai ganhou a final do campeonato mundial, do Brasil, por 2×1, no Maracanã. Ao que tudo indica, o nosso país do futebol não quis acreditar naquela derrota em casa (ninguém imaginava que viria o 7×1). A tristeza coletiva pode ter levado a uma onda de suicídios. Digo, pode ter levado, pois há fontes que consideram que o caso não passa de lenda urbana.

Voltamos então à pequena uruguaia que não torce pela vitória de sua seleção. Segundo contou seu pai, ao saber que uma conquista assim poderia levar à morte de pessoas, ela entendeu que não valeria a pena. Para esta criança, a alegria de ver seu time ganhar não tinha mais valor se isso envolvesse sofrimento para os outros. Ela preferia abrir mão do que seria bom para ela, sua família e seus conterrâneos, pensando em pessoas que certamente nem conhece, nem sabem onde estão.

Essa menina me fez pensar sobre como ainda vivemos num mundo em que muitas de nossas alegrias têm como custo o sofrimento dos outros. E pior: que na maior parte do tempo, a gente nem se dê conta disso, pois esses outros estão longe, metaforicamente, ainda que possam estar perto, fisicamente.

As roupas que compramos felizes em lojas de fast fashion mundo afora. Para que possamos desfilar saias coloridas por aí, pessoas trabalham em condições terríveis, em locais insalubres, por horas infinitas, seja em Bangladesh ou em periferias de nossas grandes cidades. Rios são poluídos pelas tintas que colorem nossas roupas*. Deliciosos bifes impactam o ambiente, mas as florestas desmatadas nos parecem distantes demais.

Este texto, porém, não tem a intenção de convocar os leitores para criação de uma vila em que todos trabalham e vivem em comunhão com a natureza. Esta autora é urbana demais para isso. Entretanto, como a menina uruguaia, gostaria que pensássemos um pouco sobre o quê na nossa vida pode causar impacto negativo para outras pessoas ou para o planeta.

Talvez seja necessário, aos pouquinhos, tomar consciência de que não estamos sozinhos no mundo. Será que precisamos mesmo da babá no dia em que ela gostaria de estar com a própria família? Será que podemos chegar na hora combinada respeitando o tempo dos nossos amigos? Será que podemos responder às mensagens mesmo sem estar tão afim? Será que conseguimos não comer carne uma vez por semana? Precisamos mesmo de todas essas roupas ou só compramos porque eram baratas? Conseguimos produzir menos lixo?

Esses temas juntos talvez pareçam não fazer sentido juntos, mas todos falam sobre enxergar o outro e todos os outros seres verdadeiramente. Uma criança foi capaz de entender que sua alegria não valia tanto se envolvesse o sofrimento dos outros. Será que nós também conseguimos enxergar o mundo dessa maneira?

P.S. 1 Eu sei que a Copa é uma disputa e que alguém vai ter que ganhar, portanto, alguém vai perder.

P.S. 2 Eu não sou vegetariana, mas venho reduzindo o consumo de carne e recomendo J

P.S. 3 Pense em como eu fico feliz quando os textos deste blog são compartilhados e… 😉

* Saiba mais aqui https://truecostmovie.com. O documentário The True Cost está disponível no Netflix.

Foto: Pixabay

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15 comentários sobre “Quanto vale ganhar a copa?

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