Voltar e revoltar

De vez em quando alguém me pergunta se volto. Outros querem saber quando será a volta. Eu desconverso, digo não saber a resposta. É mentira. Sei direitinho. Tim-por-tim. Sei que não volto mais. Nunquinha, nunca mais. Já era hora de avisar para quem anda a perguntar que volta não há. O motivo é muito fácil explicar. Não é possível voltar. Não volto só porque não dá.

Não tem jeito mesmo. Afinal, não existe o verbo “des-mudar”. E se não existe na Língua como fazer com que exista na vida? É que voltar é recuar ao ponto de partida. Mas o ponto já não é o mesmo ponto. O ponto muda, muda quem fica, muda quem vai, muda a vida. O mundo vai girando e a gente gira junto.

Antes de Sócrates, já disseram que um homem não se banha duas vezes no mesmo rio. O homem já não é o mesmo, e nem o rio. É por isso que não volto mais. Já não posso ser quem era antes. Onde estive já não existe mais. Depois da partida, já não existe o ponto. Como retornar se já não há lugar?

Não sendo possível voltar, ofereço, pois, revoltar. Em revoltas, começam revoluções. Revoltar-se é ver no movimento o sentido da existência. É saber que se vive do novo, que é sempre novo ainda que pareça de novo. Mar revoltado é que se agita e não para, balança sem cessar. E a vida o que é senão caminhar?

Por isso não volto, nunca mais. Porém, revolto-me sem parar.

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5 comentários sobre “Voltar e revoltar

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